"O que você aprendeu será sempre seu e ninguém pode te tirar isso"

“O que você aprendeu será sempre seu e ninguém pode te tirar isso”

Confira entrevista feita com Mariana Kobayashi, engenheira na área da energia há cinco anos e coordenadora de projetos digitais na França!

Mariana Kobayashi é engenheira na área da energia há cinco anos, mora na França desde 2014 e atualmente é coordenadora de projetos digitais na Total Energies. Confira a entrevista feita com ela!

1. Quando e como surgiu sua paixão pela tecnologia?

Desde pequena sempre gostei das aulas de ciências quando aprendemos sobre as invenções do passado como os primeiros computadores e as revoluções industriais. Essa curiosidade foi crescendo com a idade e principalmente com a chegada da internet a cabo lá em casa. 

Mas o grande “click” veio após uma aula extracurricular de robótica usando legos que tive durante o ensino fundamental, lá pelos meus 13 anos. Nós usamos os legos e uma espécie de arduino da Lego para construir um robozinho que efetuava tarefas que havíamos programado. Lembro de um dos projetos finais que fizemos: um veículo que levantava uma carga e a transportava de um ponto A até um ponto B. 

Essa foi a primeira vez que tive contato com a programação. Achei super interessante e bem prático e assim a curiosidade em aprender mais sobre esse mundo da tecnologia e programação foi nascendo. Além disso, minha mãe trabalhou toda a sua carreira na tecnologia da informação. Ela se formou em matemática, mas desde o início começou trabalhando nas equipes de TI em alguns bancos.

Ai vocês vão me dizer: “Mari, por isso você gosta de tecnologia! Você tinha um exemplo em casa!”. Não foi bem assim. Na verdade lembro de ver a minha mãe super sobrecarregada, fazendo horários de trabalho absurdos, indo trabalhar de final de semana e chegando em casa bem estressada. Isso tudo me marcou bastante e no ensino médio eu decidi que não queria esse tipo de carreira. No vestibular optei então por engenharia química. Em 2012 iniciei minha graduação na Escola Politécnica da USP e mal imaginava onde eu terminaria hoje! Mas fica aí que eu vou te contar!

Aquele velho ditado que diz “O bom filho à casa retorna”, cai como uma luva pra mim! Durante a faculdade de engenharia química minhas matérias preferidas eram iniciação a programação e simulação de processos usando softwares comerciais para engenharia. Para quem não é da área, podemos comparar isso a um início bem simples de digital twin dos processos físicos e químicos da planta.

Durante o terceiro ano de faculdade fui fazer um intercâmbio de duplo diploma em uma universidade na França e o que me fez escolher esse programa foi o enfoque dado pela universidade na computação aplicada na engenharia.

Também durante meus estágios sempre tive curiosidade em descobrir novas ferramentas digitais, ajudando a implementá-las nas empresas que trabalhei, mesmo sendo, ainda nessa época, na área técnica chão de fábrica de engenharia química.

Minha entrada no mundo da tecnologia aconteceu de fato durante meu mestrado na área da energia em 2017. Comecei a trabalhar em um tema de modelagem de processos usando C# e .net. Em seguida fazíamos também otimização de parâmetros desses modelos. Podemos fazer uma analogia com a otimização de hiperparâmetros de modelos de aprendizado de máquina no contexto atual de Data Science.

2. O que te chamou atenção na área de dados a ponto de escolhê-la como profissão?

A possibilidade de resolver problemas concretos e ajudar outras pessoas. Os dados estão por toda parte e podem ser usados para alavancar negócios, otimizar vendas, ajudar na criação de novos produtos, melhorar performance de produção, prever e prevenir desastres, reforçar a segurança de plantas industriais. Poderia ficar horas falando sobre a importância dos dados rsrs.

Percebi tudo isso quando estava lá do outro lado da força, na equipe de engenheiros que necessitavam de ajuda para lidar com seus dados. Ter sentido na pele como soluções digitais, ou seja, novas ferramentas, baseadas em dados nos ajudaram no nosso cotidiano na planta industrial chamou minha atenção para a área de dados e decidi seguir esse caminho após essa primeira experiência.

Refinaria no sul da França que trabalhei entre 2016 e 2017, onde percebi a importância dos dados no meio industrial.

3. Como tem sido a experiência de ser coordenadora de projetos de transformação digital?

Incrível. Diria que foi uma das melhores oportunidades que tive na vida. Gosto muito de poder ter um cotidiano dinâmico e encontrar múltiplos stakeholders. Pois devo coordenar as informações de novos projetos nas áreas de integração, gestão e análise de dados de 10 plantas industriais. 

Assim, quando um engenheiro técnico de uma dessas plantas necessita de uma nova solução eu devo entender e transmitir a sua necessidade às equipes de tecnologia. Esse exercício de tradução entre as áreas técnicas de negócio e de tecnologia me permitiram aprender muito. A gestão entre vários interlocutores me ajudaram a desenvolver ainda mais minhas habilidades de comunicação e socioemocionais.

4. Quando surgiu a ideia de criar o podcast missão 5.0?

O Podcast Missão 5.0 foi criado no início de 2021 com o objetivo de compartilhar conhecimento com outras pessoas que também estão buscando aprender mais sobre tecnologia e dados. Também falo bastante de temas mais abrangentes como os novos métodos de trabalho, gestão de projetos, transformação digital, indústria 4.0, digital twin, IoT, como evitar vieses nos algoritmos, presença feminina nos mercados de tecnologia, industrial e de ciência de dados. 

O que me motiva bastante é ver tantas pessoas como eu, que não se formaram em uma faculdade da área de tecnologia da informação, querendo entrar na área e percebendo como a tecnologia e os dados são essenciais e super presentes nas nossas vidas, tanto pessoal quanto profissional.

Eu acredito que todos nós devemos ser capazes de entender pelo menos um pouquinho sobre esses temas. Os dados estão por toda parte e quem não souber lidar com eles e “ser fluente em dados” como costumamos dizer na empresa que trabalho, pode sim ter desvantagens competitivas no mercado e na sua carreira. Portanto investir em aprender mais sobre tecnologia e dados mesmo não sendo originalmente dessas áreas vale muito a pena! 

Já dizia David Epstein no seu livro “Por que os generalistas vencem em um mundo de especialistas”: “Com a tecnologia transformando o mundo em redes mais vastas de sistemas interconectados nos quais cada indivíduo vê apenas uma pequena parte, também precisamos de pessoas que começam de forma ampla e adotam diversas experiências e perspectivas enquanto progridem. Pessoas com amplitude”.

5. Como você enxerga o mercado de trabalho morando na França?

O mercado de trabalho francês, assim como o europeu, tem uma grande demanda por profissionais da área de tecnologia, como cientistas de dados, Product Manager e Product Owner na área de dados, Data Engineer, Machine Learning Engineer, DevOps e MLOps Engineer, Scrum Master, desenvolvedores, representantes de negócios que entendam do funcionamento de projetos ágeis.

Profissionais T, ou seja, que conhecem um pouco de outras tecnologias e conceitos além de ser especializado na sua área, estão sendo bastante valorizados no mercado. Geralmente são cargos bem pagos e com possibilidade de trabalho remoto. Ainda não é muito comum o trabalho full remote onde a mesma equipe está  em diferentes fuso horários, mas está crescendo cada vez mais.

6. Quais as principais diferenças entre trabalhar no Brasil e na França? 

Acredito que aqui na França as pessoas mantêm uma distância maior entre os colegas de trabalho, são geralmente mais sérias e mais rigorosas. De forma geral, as empresas respeitam mais o equilíbrio de vida pessoal e profissional. Podemos perceber isso já pelo número de dias de férias em um ano, eu por exemplo tenho 40 dias úteis por ano que posso usar de forma esporádica ou duas ou três semanas consecutivas.

Na minha opinião e de acordo com as pessoas que já pude cruzar no trabalho, vejo que os brasileiros têm mais ambição, o que pode resultar em mais trabalho produzido. Assim, num time com o mesmo número de pessoas, o time francês demora mais para entregar a tarefa completa.

Moro há 7 anos na França e algo que sempre gosto de ressaltar é que o ensino superior brasileiro é muito bom! Temos que acreditar mais em nós mesmos. Os estrangeiros nos vêem com muito bons olhos, nos acham inteligentes e trabalhadores. Geralmente gostam de empregar brasileiros. 🙂

7. Qual conselho você daria para quem quer morar fora ou investir em carreira internacional? 

Invista em você, invista no seu conhecimento e aprendizado. Você pode mudar de emprego, mudar de profissão, mas o que você aprendeu será sempre seu e ninguém pode te tirar isso.

Acredito que hoje os profissionais mais valorizados no mercado são aqueles que sabem se adaptar e aprender. Então nunca pare de aprender! Principalmente na área de tecnologia e dados, as diferentes linguagens de programação, métodos de trabalho e stacks de tecnologia mudam muito, mas muito rápido mesmo. Ninguém pode e nem deve saber tudo, então vai com calma e aprenda no seu ritmo, mas acima de tudo, não pare de aprender!

8. Quais são suas perspectivas profissionais para o futuro? 

Frente às grandes mudanças que estão acontecendo no mercado e nos métodos de trabalho eu gostaria de passar a trabalhar full remote. Sonho em poder ser uma Nômade digital em um futuro próximo e poder morar um tempo em cada lugar; poder ir visitar meus pais, meus amigos, parentes, voltar a morar na França, na Bélgica quando bem entender e também em países que nunca morei.

Em 2020 eu fundei uma associação sem fins lucrativos na área da educação de competências socioemocionais. O Sociocate é uma plataforma online de uso gratuito e destinada a pais, educadores e instituições de ensino. Gostaria de poder me dedicar mais a projetos de impacto social.

Além disso, pensando na evolução a curto prazo da minha carreira na ciência de dados, gostaria de continuar me desenvolvendo como manager e ganhando mais responsabilidades, tanto técnicas como de gestão de pessoas.

REDAÇÃO MENTORAMA

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