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“A tecnologia nunca irá mudar se sempre for feita pelas mesmas pessoas”

Karina Tronkos é um fenômeno! Aos 24 anos, ela possui mais de 80 mil seguidores no Instagram e, com projetos inovadores voltados para a educação, venceu as últimas CINCO edições da Worldwide Developers Conference da Apple.

Karina trabalha como product designer no Hurb e é criadora de conteúdo no Nina_Talks, canal criado por ela no Instagram onde compartilha sua jornada no UX Design e tudo que a inspira e empolga no universo da tecnologia.

Conversamos sobre carreira, desafios do cotidiano, inspirações e habilidades para se destacar no UX Deisgn. Confira a entrevista feita com ela!

1. Karina, conta um pouco mais sobre você e como surgiu a sua paixão pelo universo da tecnologia.

É algo que surgiu desde pequena! Meu pai é cientista da computação e ele e a minha mãe trabalharam numa das maiores empresas de tecnologia, a Digital Equipment Corporation (DEC), então eu e o meu irmão sempre estivemos muito imersos nesse universo de tecnologia! 

Computador, videogame e muito mais. Então eu pedi para os meus pais quando eu tinha uns 12 anos para fazer um curso de robótica, eu amava jogar videogame e isso foi essencial para eu querer seguir uma carreira na área. Todo esse apoio dos meus pais e também ter sido apresentada para esse universo. Muitas meninas nem enxergam que elas podem trabalhar com isso, que é algo “masculino”.

2. O que mais te inspira na hora de criar um projeto?

Minha inspiração e a minha criatividade vem de tudo que eu consumo! Eu amo demais estudar, conversar com as pessoas, consumir conteúdos dentro e fora da minha área de atuação. 

Eu estou sempre buscando expandir o meu repertório e olhar tudo à minha volta com um olhar curioso, um olhar questionador. Toda vez que eu paro e penso: “como que isso surgiu? Como foi projetado? Qual a história disso? Que problema isso aqui está tentando resolver? Será que existe uma forma melhor de se resolver isso?” eu fico com a cabeça borbulhando de ideias!

3. O que é imprescindível para que um projeto de UX Design seja aplicado de forma correta?

Empatia, ser apaixonado pelo problema e não pela solução e ouvir as pessoas de coração aberto. 

Muitas pessoas visionam uma solução e vão em busca de informações que reforçam que a solução que elas pensaram inicialmente é a melhor. Mas assim nós estamos invertendo o processo. A gente precisa sempre buscar chegar na raiz do problema, investigar, mapear, projetar, testar e aí então chegar com uma solução. E na grande maioria das vezes sai uma solução completamente diferente da original. Mas porque a gente entendeu de verdade o que precisa ser resolvido.

4. Quais são as tendências para o futuro do UX Design e como você enxerga o mercado da área?

Algo que não é exatamente uma tendência mas que eu acredito muito que é importantíssimo é numa relação muito mais fluida entre o universo físico e o digital, o famoso “phygital”. Nós UX Designers estamos imersos no mundo de produtos digitais, mas os nossos produtos são utilizados por pessoas reais, com mentes e vidas complexas. Então poder estabelecer uma comunicação sem atritos entre esses dois mundos é algo que eu considero importantíssimo.

Outro ponto é do UX Design ir além das telas. De nos ajudarmos mais em tomadas de decisões estratégicas nas empresas, otimizando processos, trazendo eficiência e um mindset focado nas pessoas para outras áreas. Design como abordagem para propostas de novos negócios, novos processos, de solução de problemas.

5. Quais habilidades são indispensáveis para ter sucesso como UX Designer?

Ser curioso, gostar de resolver problemas, saber trabalhar de forma colaborativa e inclusiva, ser um “lifelong learner”. Nós trabalhamos fazendo uma “ponte” entre diversas pessoas e áreas, então é um trabalho muito multidisciplinar e é isso que mais me encanta na área.

6. Na sua opinião, quais são os principais erros cometidos que acabam influenciando de forma negativa na experiência do usuário?

Vou citar dois:

  • Achar que pesquisa com os usuários não é necessário porque “a empresa já conhece o próprio cliente”;
  • Envolver os desenvolvedores apenas no hand-off do design pro desenvolvimento, o que pode tanto gerar retrabalho do ponto de vista de design como também não se ter um produto tão rico porque o desenvolvedor não pode trazer sua visão ao longo do processo de construção da experiência.

7. Como surgiu a ideia de criar o projeto @Nina_Talks?

Surgiu de um problema que eu mesma passei ao buscar conteúdos de UX Design para poder trabalhar na área: a falta de pessoas no início da carreira e mulheres compartilhando aprendizados, suas jornadas e dicas para quem quer entrar na área.

8. Você venceu as últimas CINCO edições da Worldwide Developers Conference (WWDC) da Apple. Qual é a sensação de representar o Brasil em um evento mundial?

É inexplicável a sensação de ter o nosso trabalho reconhecido em competições internacionais! Nós brasileiros temos muito potencial e eu busco servir de inspiração, principalmente para meninas na área tech, mostrando que temos muito a conquistar!

9. A educação foi o tema que você escolheu para os seus aplicativos nas últimas edições da WWDC. Atualmente, o Brasil possui dificuldades nas duas áreas: Segundo o IBGE, 25% da população não tem acesso à internet, enquanto outra pesquisa mostrou que 40% dos brasileiros com mais de 25 anos não têm ensino fundamental completo. Com este cenário, é possível utilizar a tecnologia para democratizar a educação no país?

Na verdade, um levantamento do IBGE de 2019 disse que 82,7% dos domicílios nacionais possuem acesso à internet, um aumento de 3,6 pontos percentuais em relação a 2018. 

Ainda mais a banda larga móvel que passou de 80,2% nos domicílios em 2018 para 81,2% em 2019. Por isso devemos tanto nos preocupar com soluções mobile, porque é onde as pessoas mais têm acessado conteúdo. Então nada mais justo que utilizar um meio extremamente democrático para levar ensino para o máximo de pessoas possível!

10. Atualmente você cursa Ciência da Computação, é Product Designer e comanda o projeto @nina_talks. Quais são os planos para o futuro e como a Karina se enxerga daqui 5 anos?

Meu objetivo é continuar unindo essas minhas três paixões: design, tecnologia e educação em todos os projetos que for tocando.

11. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), no Brasil apenas 20% dos profissionais de TI representam a participação feminina. O que é necessário para superar esse gap?

Certamente não é uma equação simples pois é algo que envolve muitas variantes! Um dos princípios por detrás da pergunta “como podemos ajudar mais mulheres a considerarem uma carreira em tecnologia?” é “como podemos dar a eles as habilidades para que se sintam confiantes para seguir uma carreira em tecnologia?”. E desenvolver essa confiança envolve muitos fatores também.

Outro ponto é a questão da capacitação, pois o número de vagas em tecnologia cresce exponencialmente e faltam profissionais qualificados.

E um terceiro ponto que eu gostaria de levantar é a falta de conhecimento. Acho que muitas pessoas – não apenas meninas – não entendem completamente o que significa trabalhar com computação hoje em dia, o que as pessoas nessas funções fazem no dia-a-dia e o impacto que podem ter sobre a sociedade.

Como você pode escolher uma carreira sem ter contato com pessoas nessas funções? Sem enxergar que é possível uma mulher estar naquele cargo? São muitas barreiras que nós precisamos quebrar.

12. Qual recado você gostaria de passar para outras mulheres que desejam entrar no mundo da tecnologia?

A tecnologia nunca irá mudar se sempre for feita pelas mesmas pessoas. Nós devemos e podemos mudar a realidade do mercado de trabalho, pois nós precisamos de mais diversidade e representatividade. Não apenas de mulheres, mas de outros grupos minoritários que estão sub representados.

O espaço que nós temos hoje na área é devido às mulheres que desbravaram esse universo no passado e nós estamos aqui lutando diariamente para que outras mulheres no futuro tenham muito mais espaço e um ambiente de trabalho muito mais seguro e diverso. Vamos juntas?